
Luciana Ferreira durante o chá de bebê preparado para receber a primeira filha, Helena. (Foto: Instagram)
Luciana Ferreira, de 34 anos, estava ansiosa pela chegada de Helena, sua primeira filha. O quarto estava pronto e as roupas organizadas. No entanto, em 28 de junho, após três dias de idas e vindas ao Hospital Regional de Planaltina, ela saiu da unidade apenas com a certidão de óbito da filha e muitas perguntas, que agora serão investigadas pela Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF).
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Luciana afirma que desde o início do atendimento, em 26 de junho, pediu por uma cesárea. Contudo, o parto vaginal foi mantido até que complicações levaram a equipe médica a realizar uma cesariana de emergência dois dias depois.
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A criança nasceu em parada cardiorrespiratória, e apesar das manobras de reanimação, não foi possível reverter o quadro. A Secretaria de Saúde do DF (SES-DF) está investigando o caso.
IDAS E VINDAS E INDUÇÃO AO PARTO NORMAL
Luciana relatou que sua gravidez foi tranquila, sem problemas. Ela mencionou que todos os exames indicavam que sua filha estava saudável: "Minha gravidez foi perfeita. Eu não tive nada. Estava tudo tranquilo, a bebê estava perfeita, saudável, não tinha nada".
Os primeiros sinais do parto apareceram em 26 de junho, quando Luciana notou pequenos sangramentos e foi ao hospital por volta das 7h. Na primeira consulta, uma médica realizou exame de toque, ouviu os batimentos cardíacos da bebê e informou que havia três centímetros de dilatação.
Segundo Luciana, a médica analisou o ultrassom que ela levou e disse que a criança era grande, estava deitada de lado, e provavelmente o parto seria por cesariana. Mesmo assim, Luciana foi orientada a voltar para casa e retornar algumas horas depois.
No segundo atendimento, com outro médico, ela recebeu novamente a informação dos três centímetros de dilatação e foi liberada. Ao longo do dia, Luciana voltou ao hospital três vezes.
Ela evitou permanecer na unidade durante a troca de plantão para não ser atendida pelo mesmo médico, que, segundo ela, realizou o exame de toque de forma agressiva e foi grosseiro.
As contrações começaram durante a madrugada do dia seguinte, 27 de junho. Por volta das 7h, ao retornar ao hospital, uma médica verificou que Luciana estava com quatro centímetros de dilatação, ouviu os batimentos cardíacos da bebê e decidiu interná-la.
Luciana permaneceu das 7h às 13h em trabalho de parto, sentindo contrações e vomitando, sem se alimentar ou beber água. Uma enfermeira realizou um novo exame de toque e informou que ela estava com nove centímetros de dilatação.
A profissional rompeu a bolsa e orientou que ela começasse a fazer força para o parto normal: "Eu era mãe de primeira viagem. Tudo que mandavam eu fazer, eu fazia".
Logo depois, outra enfermeira fez um novo exame e, segundo Luciana, constatou que ela estava com sete centímetros de dilatação.
Mesmo após o erro, Luciana ficou horas tentando evoluir para o parto normal. O colo do útero teria inchado após o rompimento da bolsa, e mesmo assim, a cesariana não foi realizada.
Mais tarde, por volta das 22h, um enfermeiro informou que Luciana tomaria uma medicação para acelerar o parto. Ela afirmou que o remédio intensificou as dores e que a bebê continuava sem descer para o canal de parto.
"Eles sabiam que era cesárea, mas queriam que eu tivesse parto normal. Como eu ia dar à luz de forma natural se minha filha estava deitada?", disse Luciana.
Após o rompimento da bolsa, ela aguardou cerca de 12 horas pela evolução do parto. Na madrugada de 28 de junho, Luciana começou a passar mal e desmaiou após sair do banho.
Uma médica do centro cirúrgico tentou localizar os batimentos cardíacos da bebê com diferentes aparelhos. "Ela pegou três aparelhos e nenhum conseguiu ouvir a frequência da minha filha. Foi ali que percebi que tinha algo errado", contou.
“MINHA VOZ NÃO ERA NADA”
A equipe decidiu então levá-la para a cesárea de emergência. "No caminho, eu só gritava: 'Desde a hora que entrei aqui, estou falando que era cesárea, mas vocês não escutam ninguém'. Eu levei meu ultrassom, tentei mostrar que a criança estava deitada de lado, mas ninguém quis olhar. Minha voz não era nada", relatou.
Luciana disse que a cirurgia foi feita rapidamente, mas sua acompanhante só entrou na sala após a retirada da bebê. Sem ouvir o choro da filha, ela percebeu que algo estava errado.
"Eu só escutava o profissional fazendo a reanimação. Perguntei o que estava acontecendo, mas ninguém me respondia", contou. Ela soube da morte da filha durante a cirurgia.
"O anestesista chegou por trás e falou: 'Sua filha morreu'. Eu estava toda aberta, sendo operada. Ele não teve nenhuma compaixão".
Entenda a linha do tempo em detalhes:
- 26/6, 7h: Luciana foi ao hospital com pequenos sangramentos, 3 cm de dilatação e batimentos cardíacos regulares; foi orientada a voltar às 10h;
- 26/6, 10h: retornou ao hospital, foi atendida por outro médico que confirmou os 3 cm de dilatação, com um exame de toque descrito como "violento";
- 26/6, 19h: voltou ao hospital, mas ao perceber que seria atendida pelo mesmo médico, foi embora;
- 27/6, 00h30: começaram fortes contrações;
- 27/6, 7h: retornou ao hospital, médica ouviu os batimentos cardíacos da bebê, constatou 4 cm de dilatação e foi internada;
- 27/6, 13h: enfermeira informou 9 cm de dilatação, rompeu bolsa e orientou que "fizesse força" para o parto normal. Outro profissional constatou que Luciana estava, na verdade, com 7 cm;
- 27/6, 22h: tomou medicação para induzir o parto;
- 28/6, 1h: médica tentou ouvir os batimentos cardíacos da bebê, sem sucesso; Luciana foi levada para uma cesariana de emergência;
- 28/6: bebê nasceu em parada cardiorrespiratória. Foram feitas manobras de reanimação.
Agora, a família enfrenta o luto. Luciana diz que o quarto estava pronto, com móveis montados e roupas organizadas.
"Estava tudo arrumadinho, só esperando ela chegar".
Após a perda, parte do enxoval foi retirada, doada e vendida. Luciana conta que, sem conseguir revisitar as coisas da filha, passou a responsabilidade para a irmã. "Eu entrava no quarto e só chorava".
O QUE DIZ A SES-DF?
Em nota, a Secretaria de Saúde do DF (SES-DF) afirmou que determinou a "imediata apuração" das circunstâncias do caso. "A Secretaria só se manifestará sobre as circunstâncias do atendimento após a conclusão da investigação, em respeito aos fatos e ao devido processo", resumiu.
PCDF INVESTIGA
A Polícia Civil do DF (PCDF) esteve no hospital para recolher documentação médica e solicitar a necrópsia do bebê. Segundo a investigação, o bebê nasceu em parada cardiorrespiratória.
A causa da morte será esclarecida após a conclusão da necrópsia e outras diligências realizadas pela 16ª Delegacia de Polícia (Planaltina), que investiga o caso.
MORTES SUSPEITAS NA REDE PÚBLICA
Este é mais um caso de morte em hospital público do DF sob investigação da Polícia Civil. Estão em apuração as mortes de duas mulheres grávidas durante os partos no Hospital Regional de Samambaia (HRSam) e o falecimento de uma bebê de 5 meses após uma extubação acidental em transferência do Hospital Regional de Planaltina (HRP) para o Hospital da Criança de Brasília José Alencar (HCB).
- Nos últimos dias, mortes na rede pública de Saúde se tornaram alvo de investigação por suspeita de negligência;
- O primeiro caso foi registrado em 6 de julho, quando uma bebê de 5 meses morreu após ser extubada acidentalmente durante a transferência do Hospital Regional de Planaltina (HRP) para o Hospital da Criança de Brasília José Alencar (HCB). O caso veio à tona após a denúncia da família;
- Já a morte de Maria Graciana Andrade Alves, 36 anos, ocorreu em 10 de julho, no Hospital Regional de Samambaia. A mulher morreu durante o trabalho de parto;
- No dia 12, um homem, identificado como Rodrigo Resende Prado, de 46 anos, morreu enquanto aguardava atendimento no pronto-socorro do Hospital de Base do Distrito Federal (HBDF). A morte ocorreu após ele sofrer um mal súbito na entrada do hospital;
- Na última segunda-feira (13/7), Maria Aparecida Galdino dos Santos morreu após dar à luz no Hospital Regional de Samambaia (HRSam). Após o nascimento da criança, a equipe hospitalar percebeu que parte da placenta ainda estava dentro da paciente. Apesar de um procedimento, a mulher morreu devido à hemorragia;
- Em junho, um homem em situação de rua, identificado como Vilmar Pereira da Silva, morreu sentado em uma cadeira de rodas na recepção da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Recanto das Emas. O caso é investigado como possível omissão de socorro.







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